Caminhei inquieto pelas calçadas, uma sensação gostosa de quando pensamentos vão sendo escritos no ar; em volta de minha cabeça se materializavam palavras e o farfalhar de meus neurônios as misturava numa ordem completamente alucinante.
Havia muito que inquietar-se. Havia uma frase que não conseguia tirar da cabeça. “Dentro de mim mora um hospício.”. Não sabia se aquela frase impregnara em minha cachola porque eu mesmo poderia tê-la dito ou se porque quem o fez era quem o fez e isso a deixou ainda mais… digamos assim: fatal.
- Dentro de mim mora um Cabaret – eu disse imitando passos de Minnelli.
- Dentro de mim mora um hospício – assim, sem pretensões de mudar o dia de ninguém, saiu, entrou e ficou.
E morava mesmo. Naquele momento em que eu era o menino que não precisava de motivos e ele o bode dos bodes tudo o que havia sobrado dentro de nós era o hospício de cada um. Olhei pra ele com um carinho renovado, nem lembro mais que olhar era, mas era completamente diferente de qualquer coisa que já tinha experimentado, incondicional. Então, afinal, talvez ele fosse quem ele é tanto quanto eu era quem eu não era. Não estávamos preparados pra nada daquilo, eu porque não tinha motivos pra acreditar que estava, e ele por que se transfigurara em bode para refletir seu hospício interior.
- Eu quero dançar e ao mesmo tempo não. – ele disse.
Agora eu penso que deveria ter o obrigado a dançar. Agora eu penso que devia ter sussurrado no ouvido dele que ninguém naquela rua além de mim estava pouco se lixando pra ele. Agora eu penso que o agora é um instante traiçoeiro que nos afligirá num instante seguinte ao que sucedeu o instante agora.
Bem antes disso, ou seja, num outro tempo no mesmo espaço, eu disse “eu acho tão bonito esses balões que sobrevoam o céu…”. Nem era tão bonito assim: não estava sol, não estava colorido, não estava nada, eu mesmo não era nada por dentro. Eu queria que fosse lindo, e eu no fundo sabia que ele também queria que fosse ainda mais lindo do que eu queria que fosse lindo. Ele murmurava coisas que não conseguia entender, que não queria entender. Agora eu sei: já tinha entendido. Ele também. Mesmo assim apenas continuamos a velar algo que não parecia importar e que, contudo, no desfecho do dia, era a essência da relação: dentro de mim mora um hospício.