É estranho e bonito como nos conhecemos tão ludicamente, ou seja, a pessoa que nos apresentou nunca existiu: Juzicreydi. Negócio seguinte: Eu, no ápice da minha primeira calourisse, fui zoado pelas veteranas, e cai, cai como um patinho. Era 17:30 no ensino médio quando tudo aconteceu, rápida e lentamente, como eram aquelas nossas viagens de volta pra casa depois de desgastantes cinco horas e meia de aulas gazeadas no Cefetão (a.k.a. CEFET). Enganaram-me, aquelas vadias. Enquanto eu segurava o riso por ter sido apresentado à uma Juzicreydi, 7 meninas mais inteligentes do que eu se riam por dentro da minha inocência de acreditar que o nome da tal menina era, factualmente, Juzicreydi. Leila ria diferente. Leila sempre riu assim, escândalo-respeitosamente.
Passamos a roleta, descemos do ônibus e subimos em outro de mesma nomenclatura e destino. Naquela época ela era Monte Castelo e eu Daniel na Cova dos Leões, bem, talvez não tenhamos mudado em nada, after all. Seu Anjo da Guarda sempre foi meu Rê Russo e meu Rê Russo sempre foi o Anjo da Guarda dela. Sempre tivemos tanto em comum, eu e Leila. Antes da primeira parada do nosso ônibus, Leila já havia me contado tudo sobre seu Livro da Tribo, sobre sua paixonite aguda pelo menino de olhos azuis, e sobre sua doente avó HighLander. Salvador Dali em diante eu já sabia que amigos para sempre é o que nós iríamos ser.
- Escrevi uma coisinha que me lembrou você.
E a gente não esquece o primeiro poema que nos entregam, passado a limpo, dizendo que lembraram da gente quando o escreveram. Acostume-se. Não consigo encontrá-lo agora, mas ainda me lembro de como aquele “acostume-se” no final e no começo de cada estrofe me trazia a flor da pele toda a minha rebeldia. Era hipócrita aquele poema, e eu o adorava, dizia-me pra não me acostumar com os verbos no imperativo, era juvenil, adolescente e revoltoso. Era lindo. Uma menina me ensinou quase tudo que eu sei.
Uma coisa ficou certa: nossa correnteza não tinha direção. Nem nosso ônibus. Viemos parar aqui em Curitiba quase ao mesmo tempo. E eu nunca esquecerei da ida ao Shipping Curitiba pra ver o Nando Reis. Leila encostou no Nando Reis naquela ocasião, e isso a deixou tão feliz que eu fiquei feliz por ela também. E ela me fazia tão bem, tão bem.
Leila me apresentou meus melhores amigos e eu apresentei meus melhores amigos a ela. Hoje em dia o Orkut ainda acusa nossos 49 amigos em comum. Em Curitiba encenamos o teatro dos vampiros. Foram boas aquelas tardes em que eu telefonava para ela depois de dormir a manhã inteira no cursinho. “To indo praí”. E ela me recebia no seu quarto desarrumado (não ligue a baguncinha) e ali ficávamos conversando sobre mil assuntos, sobre fofocas, sobre amores e desamores. Emprestei a ela livros que ela nunca leu e eu não li ainda aqueles livros que ela me emprestou. Fazíamos pic-nics de quatro no mini quintal do prédio. Passeávamos pelo mercado que nem gente grande. Embebedamos-nos, milhares de vezes e juntos os dois fumamos mais do que mil cigarros juntos. Enlouquecemos e acabou.
“Sei que ela terminou o que eu não comecei, e o que ela descobriu eu aprendi também, eu sei. Ela falou: – Você tem medo. Aí eu disse: – Quem tem medo é você. Falamos o que não devia, nunca ser dito por ninguém. Ela me disse: – Eu não sei mais o que eu sinto por você. Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê.”
Turns out que a única pessoa que eu chamei de mentirosa na minha vida acabou sendo, acima de qualquer suspeita psicológica, a pessoa mais sincera que eu conheço. Ela voltou a me dar preciosos Livros da Tribo e num outro dia a gente se viu e se gostou ainda mais.
Nos últimos tempos e eu e Leila não nos desgrudávamos mais. Ela era meu porto seguro. E era gostoso saber que ela vinha aqui em casa porque se voltasse pra sua própria residência morria de medo de se deprimir, eu gostava de ser o antidepressivo dela. Secretamente, eu sempre misterioso, ela também era o meu antidepressivo. Essa foi a nossa fase mais artística, pintamos quadros de milhões de dólares. Participamos de corridas bastante malucas e fizemos as unhas dos ET’s.
Ao mesmo tempo, nunca havia pesado mais nossas responsabilidades. De repente, e não mais do que de repente, nós queríamos algo da vida. Algo que nem eu nem ela sabíamos direito o que é. Ainda não sabemos direito o que é. Fazer algo novo de novo. Por que esperar se podemos começar tudo de novo agora mesmo? Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo, quem roubou nossa coragem?
E a resposta nos foi surpreendente. Eu cá, ela lá, respondemos juntos: ninguém. Toda a dor vem do desejo de não sentirmos dor. E o sol nasceu de novo na janela de nossos quartos. Agora freqüentamos quartos diferentes num mesmo espectro. É por isso que eu engulo minhas saudades e aceito que Leila é fera, bicho, anjo e mulher. Leila é dela, só dela, e eu ainda estou confuso, só que agora é diferente: estou tão tranqüilo e tão contente.
E você diz daquele seu jeito:
- Ai, eu preciso de um homem!
E eu digo:
- Ah, Leila, eu também!
E a gente ri.

12 12UTC outubro 12UTC 2010 às 4:35 AM |
E essa Daiana quis nos pregar uma peça. E conseguiu. Cá nesta fria cidade ficamos nós, sem o cobertor de retalhos que ela nos é.
Mas as grandes pessoas são assim, como as coisas boas da vida: podem durar anos, mas quando acaba a gente diz que passou rápido demais e pede bis. E eu só não imploro por bis porque sei que ela quer mais é ser feliz. E a felicidade às vezes se muda.
Dan, já estava com saudades de ler seus textos… obrigado por escrever.
Um beijo!
11 11UTC outubro 11UTC 2010 às 7:07 PM |
Meu melhor presente de dia das crianças… O melhor.
Foi quase como aquela vez em que ganhei a cozinha INTEIRA da Barbie. E eu fazia alguma coisa comum e, meia hora depois tava lá: admirando a cozinha. Aí almoçava e tal… Escovava os dentes e ia checar se tava tudo certo com a cozinha. Lia aquele gibi da Turma da Mônica incansavelmente por quase uma hora e mandava um olhar de revesgueio na direção da cozinha.
Já li esse texto umas 5 vezes. Li a primeira vez, chorei, ri, me emocionei, senti saudade, lavei o rosto e fui com a minha mãe ao médico. Voltei. A mãe quis sorvete na cama (essas manhas de quem tá doente), levei, fiz um agrado e voltei: para ler mais uma vezinha o texto. Tocou o celular, irmã querendo bater papo. “Oi, tudo bem, como vai?”. “Então tá, beijo, tchau”. E voltei a ler o texto.
Obrigada por isso.
A cozinha da Barbie e esse montão de palavras…
Sempre aprendo com o teu pequeno grande coração, meu amor, meu amor…
11 11UTC outubro 11UTC 2010 às 4:00 PM |
Daniel Bonfim! Foi a coisa mais linda que alguém já escreveu pra mim e, juro, choro muito nesse exato momento. Ai, meu Deus, você me conhece mesmo, menino. E acho que te conheço também.
Não sei se tem um jeito de eu conseguir expressar tudo o que sinto nesse exato momento. Talvez vc entenda se eu te disser que esse texto fez a minha ficha cair. E eu choro, choro muito. Choro desesperadamente.
Espero que, com essa mudança de estações, nada mude. Não entre nós, né?
Eu te amo MUITO, meu amor… E, de todas as coisas lindas que vc já fez por e para mim, essa foi a mais foda, a mais intensa e, com certeza, a mais inesquecível.
Obrigada por me deixar ser sua Leila.
Eu realmente te amo.