Tem tudo isso

Eu, indo pra Lisboa. As vezes não acredito que isso está acontecendo. Mentira, acredito sim. Muitas coisas me fizeram chegar a esse ponto da minha vida para negar o fato de que  eu era uma pessoa de fora num mundo interior constante. Sou fascinado pela idéia de viajar, sempre fui. Quando eu tinha 7 anos minha mãe me botou num ônibus pra São Paulo sozinho. Calma, ela não estava me abandonando num banco de ônibus interestadual para se livrar de mim. Às vezes eu penso se ela não deveria ter feito exatamente isso. Não, não é essa a história.

Acontece que minha madrinha morava em SP e eu fazia um tratamento para minha rinite em SP. É incrível como nossos pais se preocupam com a nossa saúde, sabe quando que eu mandaria meu filho pra SP pra fazer tratamento de rinite? Somos de Ponta Grossa, Paraná. Teria sido muito mais fácil me mandar pra Curitiba. Fato é que minha madrinha estaria plantada na frente do portão de desembarque me esperando. Pensando nisso agora me pergunto: e se eu tivesse me perdido naquela ocasião? Será que eu ainda seria virgem (a). Brinks. E se eu nunca achasse minha madrinha e fosse achado pela Nazaré. Que perigon, que mãe inconseqüente eu tive. É claro que eu não lembro dessas coisas, mas essa história já foi tantas vezes repetida em churrascos de domingo que poderia ser escolhida para um Retrato Falado no fantástico ou algo assim.

Bem, minha madrinha Helena hoje tem mais de 60 anos e se orgulha muito disso.

- …tava  ali na fila do banco e um moço mais novo na minha frente! Eu chamei o segurança e disse: isso aqui é uma fila para idosos, você não vai fazer nada?

Naquela época ela era igualmente mais nova, uns 50 de certo. Tinha três filhos e um marido-filho. Dindo Carlos, Pati, Lúcia e Rodrigo, ou Luís, não lembro o nome do filho mais velho, nunca soube. Eu nunca soube de muitas coisas. Eu nunca soube que a Lúcia engravidou com 16 anos em plena década de 80. Eu nunca soube que a Pati tinha ido ao Rock in Rio e eu NUNCA SOUBE que meu dindo Carlos tinha parentes em Minas Gerais. Não me contavam nada porque eu era criança, só soube dos bafos muito tempo depois. Pensando bem foi muito bom só ter sabido algumas coisas com 14 anos, quando eu era um adolescente quase saindo do armário em 2003 eu era sedento por bafos. Tudo o que me ajudasse a não ter de lidar comigo mesmo era bem vindo ao pensamento. A única coisa que eu sabia sobre o filho de minha dinda Helena era que ele morava nos Estados Unidos. Eu achava digno. Muito tempo depois, lógico, eu soube que ele foi para lá porque era um semi delinqüente juvenil suburbano que criava problemas para  uma típica família de classe média paulistana. Como naquela época, anos 90, davam visto americano de 10 anos para qualquer um que fizesse assim o/ com a mãozinha, ele foi.

Lá muitas coisas que eu nunca soube devem ter acontecido com ele. O que eu sei é que ele fez um amigo que acabou ficando muito amigo do meu Dindo Carlos quando este foi visitá-lo. Me perdi. O John é um amigo do filho do meu Dindo Carlos que este conheceu quando foi visitar aquele no Colorado. Algo assim. Um dia eu estava assistindo um dos meus cassetes da minha coleção Disney e o John chegou lá em casa. O John era O John. O John falava numa língua impossível de se entender, inglês. Eu o achava tão fascinante, ali, sendo estrangeiro. As conversas que ele tinha com todo mundo precisavam ser traduzidas por um amigo. Ele gostou muito de shuraskol e sempre parecia que estava bêbado. Fascinante. Simplesmente fascinante.

Antes de ir embora ele passou pelo meu quarto e disse: “Aqui está 1 dollar”. Me senti ryca, ryycaa. No dia seguinte vi uma revista estranha na mesa da sala. Era um calendário com fotos do Colorado. Muitas daquelas montanhas rochosas e brancas em paisagens magníficas. Daí minha fixação em ver neve. Tenho certeza que quando eu ver neve eu vou gritar “^^ neve!” e uma hora depois “¬¬ neve.” Mas mesmo assim, será que neva em Lisboa em Fevereiro? Preciso descobrir.

Descobri. Neva. Esse século nevou duas vezes, 1954 e 2006.¬¬ Que merda! Bonner: Daniel, o que vocês espera dessa sua viagem para a Europa? Resposta: Que neve, é claro!

Alguns estão se perguntando: e o Colorado e suas montanhas? Acontece que em 2002 eu tive acesso a internet. Na TV eu via tudo que falavam de bem dos Estados Unidos e de que o sonho de qualquer criança é uma viagem a Disney. Na internet não, na internet eu me apaixonei pela Europa. Muito mais porque eu tinha um namorado online que morava em Piçarras, Santa Catarina e dizia que ia me levar numa viagem de cruzeiro pelas ilhas gregas e que se eu quisesse ir com ele nós podíamos fugir e ir juntos. Ficava horas conversando com ele no ICQ. Hoje eu penso que eu estava sendo ludibriado, daonde! Espero que o João seja um pedófilo muito infeliz em algum lugar do mundo, de preferência em uma cadeia onde ele esteja sendo obrigado a dar o toba depois do almoço. COF. COF.

Daí eu fui pra Toronto, fiquei um mês. Foi legal. E agora Lisboa. Quando que eu quis ir pra Lisboa? Nunca, nunca mesmo. Quando eu entrei na faculdade comecei a fazer curso de francês, porque eu sabia de um amigo do meu primo que tinha ido fazer intercâmbio pela UTFPR, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, em Paris. Achei luxo. Acontece que lá pelo segundo semestre do curso de Francês entrei no site da faculdade e descobri, desse jeito, que meu curso só oferecia bolsas em Lisboa, Portugal /Q. Brochei. Lisboa se fala português, qual é a graça?

E não é que eu me inscrevi pra uma bolsa de estudos de seis meses num Instituto de Artes e Design em Lisboa? E não é que fui aceito? JURO pela santa Lady Gaga que foi sem querer. Há alguns meses atrás eu desistira de Design. Não quero mais brincar, eu disse. Simplesmente de uma hora para a outra Design deixou de ser a minha. Eu gostava, eu gostava muito, é verdade. Mas ah, pra quê faculdade disso? Eu sempre senti que Design me ensinou milhares de coisas interessantes sobre História da Arte, Teoria da Cor, Tecnologia e Sociedade, mas o resto era tudo muito chato. Primeiro, eu não sei desenhar. Daí me disseram que pra ser designer não precisa  saber desenhar. Aham, senta lá Claudia. CLARO QUE PRECISA. De – Si – Gner. De – Senh – Ista. E eu não sei desenhar, e sinceramente tenho até preguiça de tentar pensar em aprender de novo. Parecia que todas as boas idéias que eu tinha eram desentendidas por todos. Até de por mim mesmo, tive até birra de mal compreendido pela sociedade. Design está aí, não é algo que precisa ser inventado. Para mim, todos os designers estão tentando mudar o verdadeiro design que, no fundo, já existe. Eu desisti de Desing quando eu parei pra assistir o documentário Helvetica no Vimeo e um moço idoso disse assim: “A profissão de um médico é curar o mundo de doenças, a profissão de um designer é curar o mundo da feiúra”. Meucu que é. Não é isso que eu quero ser. O que há de tão feio no feio que não possa ser bonito também? Eu sou pró-feio demais para ser entendido por algo tão “belo” quanto o Design e seu mundo com traços milimetricamente traçados. Sorte minha que fui aprovado numa bolsa para um Instituto de ARTES e Design em Lisboa. Claro que quando escolhi as matérias para inscrição dei ênfase no que mais me interessava: fotografia, semiótica, e tals.

Estou tentando fantasiar mais sobre o presente e o passado do que com o futuro. Ainda não me imagino lá, em Lisboa. Claro, estou fazendo por onde, dia-a-dia começo a preparar papéis, pesquisar passagens, autenticar assinaturas, visitar consulados, enviar e-mails, pegar passaportes…

O que é burocrático me desce muito bem, o problema é o que não precisa de carimbos para acontecer. Pensar nas despedidas é que realmente dói. Mês passado nasceu meu primeiro sobrinho, mais: sou padrinho. Sem contar todos os amigos que já tenho aqui em Curitiba, que, vou falar, eu achava que nem davam a mínima para mim. Claro, MEUS AMIGOS, a gente sabe que ser amigo significa considerar alguém tão importante a ponto de se tornar importante para essa pessoa também. Mas é claro que ninguém fica lembrando disso o tempo todo quando nada estar por vir. Quando eu encontrava as amigas toda semana para um almoço de contar as novidades não tinha ainda aquele momento da conversa em que caiamos no assunto Lisboa. A Ana não ficava brava e a Leti não falava que ia sentir muito a minha falta. Agora mudou, recebi e-mails realmente tocantes de amigos que eu “não sabia” que tinha. De amigos que me dizem coisas que nunca tinham dito.

Nessas horas meu pensamento fraqueja, e eu nem sei mais o que dizer. Só sei que preciso fazer com que as coisas aconteçam. Essa viagem significa tanto para mim. PARA MIM. MIM no sentido mais íntimo do EU. Aos poucos a cabeça voltada para fantasias presenciais vai se modificando e eu começo a fantasiar sobre tudo o que está para acontecer. A cada dia a ansiedade parece aumentar um pouquinho, tão pouco que ainda não dá pra ver no gráfico da ansiedade. Mas algo está aí, e algo está aqui também. Bjs.

4 Respostas para “Tem tudo isso”

  1. Juliana Mayumi Disse:

    Fantástico seu blog Dan!

    Que saudade imeensa de você..
    Mato um pouco da saudade lendo seus posts divertidíssimos, como se estivesse te ouvindo.. expressando seus pensamentos do jeito que só você faz!!

    Tudo de melhor em 2011 aí em Lisboa!
    Beijo da fã!

  2. Max Reinert Disse:

    Estive em fevereiro em Lisboa e só peguei chuva…. chuva e chuva…
    Neve, que é bom, nada!

  3. Daiana Geremias Disse:

    Tanta informação que nem sei o que comento primeiro…
    Sei que amo seu jeito de ser e escrever. Amo isso de a gente ter sonhos e amo ainda mais os sonhos que se realizam tortos, na cagada.
    Vai dar tudo certo, meu amor.
    E eu nunca pensei no design como essa coisa de “curar o feio”. Acho que vai mais além…
    Confio em vc, gato. E te admiro.
    Um beijo gigante!

    P.S: Eu não sabia ainda da sua viagem aos 7 anos! Bem “Retrato Falado” mesmo!

  4. Emerson Disse:

    Que coisa boa quando as pessoas colocam o pensamento pra fora. Eu adoro assistir aos pensamentos das pessoas e textos são melhores do que Ressonância Magnética por Emissão de Pósitrons pra isso.

    Aí eu venho aqui e vejo tudo que esse meu amigo pensa e o modo com que ele pensa. Aí gosto mais dele, pois quanto mais a gente conhece algo que é bom, mais a gente gosta.

    Eu ainda não processei a informação de que você vai ficar longe da gente por mais de um ou dois meses. Por enquanto essa percepção tá criptografada, só vai ser traduzida no aeroporto, naquele dia que vai ser fatídico e vai marcar a sua vida pra sempre.

    Por mim, você pode e deve ir pro mundo. Quem tem asas merece voar.

    Um beijo, Dan!

    PS: Sobre a neve, eu acho que a gente só vai fingir que se acostumou com ela. Mas quando ninguém estiver olhando, a gente vai comer, enfiar a cara na neve, conversar com a neve. Ah, vai.

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